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10 / 1 / 2012 - 13 : 22 : 21
Rainha da Reforma Agrária eleita por João Goulart em 1964 com
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Nicanor Coelho, de Dourados

        

         Uma vida cheia de dificuldades e tragédias pessoais. Assim foi a saga da agricultora Januária Maria da Conceição nascida em 19 de setembro de 1933 em Caririaçu, região de Juazeiro do Norte no Ceará. A trajetória de lutas desta nordestina que há trinta anos vive na região da Grande Dourados agora é contada em verso e prosa no livro “A Rainha de Jango”.

  

         A biografia autorizada de Januária coroada em 1964 pelo então presidente da República João Goulart como a Rainha da Reforma Agrária foi escrita pelo professor Aldair Lucas Carvalho em menos de seis meses conta em minúcias os passos da agricultura. 

Depois de perder todos seus descendentes nos últimos dois anos, Januária resolveu contratar um biógrafo para contar sua vida para poder voltar ao Cariri. “Quero voltar para a minha terra para enterrar meus ossos”, diz a veterana agricultura aos 78 anos.

Januária esteve pessoalmente no Palácio do Planalto quando foi recebida por João Goulart que lhe colocou a faixa de Rainha da Reforma Agrária. Conforme o decreto assinado pelo presidente Januária reinará por cem anos até 2064.

Em São Paulo, a Rainha da Reforma Agrária foi metalúrgica quando no daí 28 de abril de 1963 João Goulart foi até o Sindicato. “Foi um alvoroço, pois todos queriam para o serviço para ver o nobre homem. Os patrões não resistiram e todos pararam as máquinas e os metalúrgicos foram para a rua para sentir o prazer em dizer depois que viram e estiveram com o presidente”, diz um trecho do livro.

Januária, conforme a biografia trabalhava de dia em uma dessas metalúrgicas e à noite como caixa em um cinema. Certo dia apareceu na fábrica um sindicalista de nome Plácido Castelo acompanhado de um cidadão que Januária só se lembra do primeiro nome: Wilson, à busca de uma moça para tornar-se a Rainha dos Trabalhadores. Acabou sendo eleita a rainha. No dia primeiro de maio o presidente do Sindicato disse para Januária: - “A partir de hoje você será a rainha da Primeira Conferência da Mulher Trabalhadora”.

Tempos depois Januária foi a Brasília numa caravana de sindicalistas. Durante a viagem de ônibus ela e os sindicalistas participaram de vários comícios apelando ao povo brasileiro que ajudasse João Goulart a realizar um processo de reforma agrária.

Chegando a Brasília a Rainha subiu a rampa do Planalto onde ela e a comitiva foram recebidos por João e sua esposa Maria Tereza. O presidente do Sindicato havia pedido que Januária decorasse a frase que jamais sairia da sua mente. Um silêncio profundo toma conta do Palácio, diz o livro. Januária dá dois passos em direção ao presidente e declara: - “Excelentíssimo Senhor Presidente João Goulart, o que me traz à vossa presença é pedir para toda a nação a Reforma Agrária”. Jango respondeu: “Eu aceito!”.

Foi neste momento que Jango, entusiasmado com seus ideais socialistas, assinou o documento em que declarava que Januária seria a Rainha da Reforma Agrária por cem anos até o dia 25 de março de 2064. Uma semana depois Jango foi deposta e iniciou-se a Ditadura Militar. Januária teve que viver escondida. Passou a trabalhar em bares, como empregada domestica, sempre fugindo.

No inicio da década de 1980 aportou em Dourados onde foi dona de bar e reconstruiu sua vida. Nunca teve sorte no amor. Em 1999 o INCRA fez uma homenagem a Rainha da Reforma Agrária que foi contemplada com o lote 47 no Assentamento São Sebastião no município de Ivinhema. No ano seguinte Januária foi recebida em Brasília pelo ministro da Agricultura e pelo filho de João Goulart. “Era uma espécie de agradecimento postumamente pela tentativa de Reforma Agrária da parte do então último presidente eleito democraticamente antes de se implantar a ditadura militar no Brasil”, disse o biógrafo. Assim Januária depois de muitas décadas conseguiu seu pedaço de chão.

O livro da Rainha de Jango foi lançado em 21 de dezembro no auditório do Sindicato dos Comerciantes de Dourados. No dia seguinte Januária que havia vendido o seu sítio com a anuência do INCRA, juntou as malas de volta a Juazeiro do Norte, terra do Padre Cícero. Voltou em busca das suas raízes, a procura do seu grande amor e para descansar em paz.


Em Fátima do Sul ficou um irmão. Sua única filha morreu vítima de um câncer nos pulmões. O genro morreu antes. A neta de vinte anos não suportou a dor da perda e cometeu suicídio. Januária ficou sozinha no mundo. Apenas a faixa e a coroa de Rainha da Reforma Agrária, sua história e seu legado lhe pertencem. Mas como quem foi “rei não perde a majestade” Januária vai reinar em terras cearenses e contar para o seu povo um pouco da história recente do Brasil.

 

Fotos: Nicanor Coelho

 

 

 

        


 


 

Tributo a Januária

 

O seu nome é Januária

Nunca teve outro de pia

Em Juazeiro do Norte

Era a moça simpatia

Vai a Caririaçu

Cada dia é um canguçu

Que ela se auto-alivia.

 

 Se apaixona por Francisco

Mas se casa com Manoel

Sua vida que era doce

Se transforma em puro fel

Queria antes ser freira

Que uma vida bagaceira

Quis devolver o anel.

 

Mas mulher naquela época

Era um simples objeto

Nas mãos de homens sem senso

Às vezes menos que inseto

Assim o tal Manoel

Amarga o que era mel

Desvela-se o abjeto.

 

Como todo nordestino

Que foge da seca certa

Januária vai pra Sampa

Buscando uma vida reta

Queria criar a filha

Dar a ela uma bela trilha

Por mais que fosse discreta.

 

Mas o tal do Manoel

A Sampa lhe acompanhou

Quase mata a sua filha

A polícia então chamou

Chegou a rádio-patrulha

Saiu no Jornal Fanfulha

E dele se separou.

 

Foi viver a sua vida

Passando por privações

Mas por onde ela passava

Arrombava corações

Mas quis a vida seguir

Com medo de dividir

Todas suas provações.

 

Trabalhou de secretária

Em açougues, em cinemas,

Tinha uma vida agitada

Mas enfim, valia à pena

Ralava da noite ao dia

Para dar a sua filha

Uma vida mais amena.

 

Um dia o sol brilhou

Em sua vida agitada

Se transforma em rainha

De toda a mulherada

Que trabalha duplamente

E viaja de repente

Ao Palácio da Alvorada.

 

Lá se encontra com Jango

E com a Dona Teresa

Tudo é muito espantoso

Tudo cheio de surpresa

Vira Rainha de novo

Sua vida agora é do povo

Que leva comida à mesa.

 

De volta para São Paulo

Explode a Revolução

Ela sem saber de nada

Dispara-lhe o coração

Meu Deus, o que foi que eu fiz?

Quero bem ao meu país,

Amo a minha nação.

 

Foi presa em uma casa

Ali ficara um semestre

Escapou por um milagre

Em uma fuga de mestre

Foi à clandestinidade

Mudou de identidade

Vivendo com quem lhe preste.

 

Sofreu muito trabalhando

Com um nome cambiado

Lutou muito em serviços

Sem seu nome registrado

E ao Mato Grosso do Sul

A Dourados, o céu azul

Deu-lhe poder redobrado.

 

Mas Deus quis que ela mudasse

De cidade em cidade

Até ir a Deodápolis

E encontrou uma entidade

Chamam-lhes comum: sem-terra

A vida volta a ser guerra

Na mesma comunidade.

 

Auferem a luta na Lei

Ganham um pedaço de chão

Depois de 36 anos

Ela ganha o seu quinhão

São onze anos de luta

Lançando mão da batuta

Alcança a emancipação.

 

Foram muitas as batalhas

Vivendo no assentamento

Ganhou e perdeu combates

Viveu o descontentamento

Viu ali corrupção

Doeu-lhe o coração

Passou por graves momentos

 

Onze anos se passaram

E tudo se arrefeceu

Quando soube da notícia

Que sua filha morreu

E que também sua neta

Numa atitude incorreta

À vida um fim lhe deu.

 

Desfez da propriedade

De uma vida consorte

Quer voltar para o Nordeste

Ao Juazeiro do Norte

Quem sabe o amor que deixou

A quem tanta ela esperou

Ame-lhe até à morte.

 

Amigo, caro leitor,

Linda e triste é esta história

Dei o que eu poderia

Amei a face vitória

Inda me veio as lágrimas

Ri, mas veio euforia.

 

Louco é quem não compreende

Uma história como esta

Cansei daqueles que dizem

A vida é uma festa!

Sou sóbrio, tô longe desta.

 

Cavalheiros e senhoras,

A história se descerra

Rompemos as convenções

Vivamos longe da guerra

Amemos de coração

Louve a luta que encerra

Hoje é um dia de festa

O melhor que se espera.

 

 

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